132 anos de um evento incompleto no país do mito da democracia racial

Missa Campal realizada em 17 de maio de 1888 em comemoração a Abolição https://fotografia.folha.uol.com.br/galerias/43858-13-de-maio-dia-da-abolicao-da-escravatura

Hoje é dia 13 de maio de 2020 e fazem 132 anos que a escravidão foi proibida no Brasil. Este foi o último país onde a escravidão deixou de ser legal e só o foi porque a instituição já era insustentável e estava em crise desde a década de 1870. Por mais de 350 anos pessoas trazidas a força da África e outras já nascidas na Colônia ou no Império foram escravizadas nessas terras. Os dados mais atualizados apontam que o Brasil recebeu mais de 50% de todos os africanos escravizados trazidos para as Américas. Quando o tráfico foi proibido por pressão internacional em 1831, o Brasil continuou com essa prática por pelo menos mais 20 anos e com conivência e colaboração das autoridades. Sim, já naquela época o Brasil tinha as famosas “leis que não pegam”.

Quando a escravidão foi proibida não houve nenhuma política de reparação. Muito pelo contrário, o Brasil parecia querer vomitar toda a sua população negra. Teorias racistas surgiram prevendo o desaparecimento dos negros no país e políticas estatais promoveram a imigração em massa de europeus para branquear a população. Intelectuais brasileiros, entre o fim do século XIX e o início do século XX adaptaram teorias de determinismo racial ao contexto nacional como forma de explicar os destinos do Brasil. Até mesmo discursos eugenistas circularam por aqui. Acontece que, com a crise e o fim da escravidão, se fazia necessário encontrar outros critérios de distinção social. Negros e mestiços eram vistos como mais propensos a doenças, criminalidade, violência e outras formas daquilo que era considerado “degeneração social”. Um artigo publicado na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, em 1891, dizia que “Os negros representam um exemplo de grupo incivilizável”.

O Brasil tinha vergonha de si mesmo e tentava esconder sua imensa população negra e mestiça. Até mesmo revistas de cinema, como a Cinearte, ressaltavam a importância de um cinema de “gente branca e bonita”, que não apontasse as câmeras para as desigualdades sociais e raciais do país. Um artigo de 1926 dizia que se os cineastas brasileiros filmassem negros e índios a imagem do Brasil seria prejudicada, pois os estrangeiros podiam pensar que erámos “uma terra igual a Angola, ao Congo ou cousa que o valha”.

Esses são apenas uns poucos exemplos de uma Abolição incompleta e ineficaz. Até hoje o Brasil convive com a herança da escravidão. As desigualdades sociais no país estão interligadas ao racismo e as desigualdades raciais.

Desde a década de 1970, ao invés do 13 de maio, os movimentos negros têm preferido a data de 20 de novembro como comemoração da luta contra a escravidão e como dia da consciência negra. Trata-se da data do assassinato do último líder de Palmares, Zumbi (1695). Ao invés da imagem de uma abolição dada no último momento pelos brancos e assinada simbolicamente pela princesa herdeira, prefere-se a imagem da luta e da resistência. Ninguém lutou mais contra a escravidão do que os próprios negros.

Por historiador Gabriel Medeiros Alves Pedrosa

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