7 anos de crise: Carta de um historiador ao leitor do futuro

Se você estiver me lendo do futuro, e não saiba em qual contexto vos escrevo, seja em meus trabalhos acadêmicos ou aqui neste site de notícias, resumirei brevemente alguns acontecidos que moldaram nossas vidas de Junho de 2013 a Junho de 2020.

Palestra do Historiador Emanuel da Silva Oliveira, na EREM Luiz Pereira Júnior -Caetés-PE, 15 de Novembro de 2017.

Junho de 2020, data que carrega o fardo de aproximados 7 anos de crise no país, escancarado a partir das manifestações de Junho de 2013, e sua tomada de lado para a extrema direita, que apesar disso, não conseguem vencer a eleição presidencial em 2014. Contudo, montam a maior bancada desde a ditadura militar, inconformados com a derrota em união ao “centrão” promovem o que o ex-senador do PMDB Romero Jucá chamou em áudio de: “acordão, com supremo e tudo”, que culminou em um golpe em forma de impeachment, em 2016 na presidenta democraticamente eleita, gerando uma polarização que vemos até hoje. Além da perseguição ao maior nome da esquerda brasileira e mais adiante a prisão, para impedir a candidatura em 2018. Em 2017, o Brasil, se coloca oficialmente em guinada ao neoliberalismo, fragmentando as instituições estatais, os direitos trabalhistas, preconizando os investimentos a saúde e educação, com ataques diretos ao desenvolvimento científico e as universidades. 

Em 2018, esse projeto que aqui coloco como de herança colonizadora, pois ataca a autonomia do brasileiro para servir aos interesses externos, é consolidado ao eleger democraticamente, embora através de métodos ilegais, que nesse momento (junho de 2020), está sendo apurado na CPI da Fake News, um presidente com aspirações de cunho explicitamente fascistas, com diversas investigações arquivadas de relação com milícias do Rio de Janeiro, crimes de ódio e corrupção. Em 2019, é intensificado o projeto neoliberal de 2017, e o país atinge 13,2 milhões de pessoas na miséria, e desde de então as perseguições a esquerda passam também a serem às mídias tradicionais, que estavam em apoio maciço ao   impeachment também fazendo parte do acordão.  

Em 2020, o Brasil flerta como nunca visto antes, após 1964, com um novo golpe militar. O autoritarismo do Presidente e seus filhos de forte influência em suas decisões, expõe hoje em total insegurança a ponto de um ministro do STF, comparar a situação a ascensão do Nazismo na Alemanha nos anos de 1930. Contexto bastante crítico, agravado uma vez que, o mundo passa por a maior pandemia desde a gripe espanhola em 1918, pois, somos o segundo país do mundo em casos de COVID-19, perdendo apenas para os EUA (não sei se no momento que você está lendo esse texto o Brasil não assumiu a primeira colocação), outros países que tiveram pouco impacto priorizaram o intenso isolamento social em quarentena e se aproveitaram da força do Estado para sobreviverem a crise, já aqui no Brasil, com toda essa fragmentação estatal e os discursos e práticas eugenistas do presidente, somados ao crescimento da desigualdade, que agora se encontra ainda mais escancarada, temos 25% das mortes por Corona Vírus do mundo de acordo com a OMS.  

Apesar da reação de finalmente o movimento antifascista e antirracista ganhar corpo nos últimos dias, a violência não diminuiu. Como pesquisador, confesso que não está sendo fácil desenvolver trabalhos em meio a tanta insegurança democrática e existencial, mas ao mesmo tempo, tento pensar que é nesses momentos de crise que a função do historiador é mais cobrada, e nos faz mergulharmos ainda mais em nossa escrita, refletindo questões antes banalizadas, nos organizando ainda mais como grupo, e principalmente revitalizando a empatia pelo outro, coisa que o fascismo abomina e que precisamos a todo tempo ressaltar. 

Caetés News

Emanuel Oliveira, historiador, mestrando em História Social da Cultura Regional pela Universidade Federal Rural de Pernambuco; e graduado em licenciatura em História pela Universidade de Pernambuco.

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