A cruz, a espada e a história: a invenção do Descobrimento do Brasil

A Primeira Missa (Victor Meirelles, 1860)

Quando uma nação começa? É possível marcar um ponto no tempo que podemos chamar de origem? Como não pretendo criar nenhuma tensão narrativa nesse texto, já adianto que toda resposta seria inventada. As origens dessas “comunidades imaginadas” são construídas com o objetivo de criar a ideia de continuidade entre o passado, o presente e futuro. Já ouviu falar em “mitos de origem”? Eles servem justamente para explicar de onde viemos, onde estamos agora e para onde vamos amanhã. Lembro que os franceses ora assentaram como seus antepassados os francos na Idade Média ora os gauleses na Antiguidade (perceba como a coisa tende a se estender para tempos cada vez mais primordiais). E o que dizer de quando o passado gaulês e romano foi mobilizado para justificar a ocupação nazista e o colaboracionismo durante a II Guerra Mundial? Mas vamos parar por aqui, pois meu objetivo não é falar dos franceses.

A criação do Estado nacional brasileiro demandou a constituição de um sentimento de nacionalidade. Para isso, foi preciso pontuar uma origem como evento de fundação e também criar heróis que sintetizassem o destino nacional coletivo. O passado deveria ser objeto de celebração através de um culto cívico. A finalidade era produzir uma coesão simbólica e despertar virtudes cívicas. A criação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, em 1838, sob proteção da monarquia, tinha justamente esse propósito. Era preciso criar uma galeria de imagens e espaços que perpetuassem a memória da nação; rememorar e celebrar uma suposta harmonia em nossa história enquanto “povo”. Claro que essa harmonia é idealizada, mas foi mobilizada como forma de coesão simbólica. O presente e o futuro deveriam ser iluminados por um passado virtuoso de celebração aos mortos e de culto aos valores cívicos.

No século XIX, o Brasil independente fez de sua “ação civilizadora” uma continuidade da colonização portuguesa. Sendo assim, o início da história brasileira só poderia ser o evento que marca a chegada dos exploradores portugueses. A invenção desse marco já chegou a afirmar que a carta escrita por Pero Vaz de Caminha constitui a “certidão de nascimento” do Brasil. Assim, a chegada da civilização, do cristianismo e das letras inventam o início de nossa história. Quanto aos nativos que já estavam no território e avistaram as embarcações chegando ao longe, eles são povos sem história; “sem fé, nem lei, nem rei” – já diria um cronista na época.

A historiografia brasileira junto à pintura histórica no século XIX foram cruciais na afirmação do mito do descobrimento. Adolfo Varnhagen, considerado o fundador dessa “história pátria”, via no Estado o ponto máximo do processo histórico, o que justificava a colonização, o extermínio dos indígenas e as demais violências cometidas em prol de um projeto de civilização. Dizer que os índios não possuíam história, por exemplo, implicava em considerar que foram os civilizados portugueses que a trouxeram nas caravelas. O sentido político disso estava em criar uma ligação entre o passado colonial português e o presente do Estado imperial como forma de promover uma consciência nacional.

Um livro chamado “História da Colonização Portuguesa do Brasil”, publicado em três volumes a partir de 1900, dizia que “Se não fora a transplantação do nacionalismo tradicional português, o Brasil não existiria”. A propósito, o primeiro volume foi publicado justamente no ano do Quarto Centenário do Descobrimento.

O tal evento comemorativo mobilizou inúmeras entidades, intelectuais e o próprio Estado. Era uma celebração cívica e nacionalista e deveria ter projeção internacional. Claro, as comemorações excluíram os habitantes nativos do território. O vice-presidente (Paulo Frontim) da Associação que organizava o Quarto Centenário chegou a falar até em extermínio dos indígenas.

Um monumento construído por Rodolfo Bernardelli foi inaugurado com três estátuas: Pedro Álvares Cabral, frei Henrique de Coimbra e Pero Vaz de Caminha. A novidade era justamente o acréscimo deste último personagem ao grupo dos “descobridores”, aquele que “fundara” a história ao coloca-la nas letras. Durante o século XIX, o mito de fundação oscilava entre Cabral (o Estado) e frei Henrique (a Igreja), com este último perdendo cada vez mais espaço para um Cabral heroico, aventureiro e desbravador. O culto cívico ganhava ares mais seculares e menos sacros. Mas a imagem do cristianismo foi e ainda é forte nesse mito de fundação. Durante muito tempo, o dia da Primeira Missa e não o do desembarque foi tomado como o evento fundador do Brasil. O quadro de Victor Meirelles é um marco da iconografia do descobrimento até hoje. A novidade no monumento de Bernardelli estava em juntar os três pilares dessa invenção da origem do Brasil: a espada, a cruz e a história.

Referência : MORETTIN, Eduardo. “Formas de produção e circulação do tema do Descobrimento: história, arte e memória”. In: MORETTIN, E. Humberto Mauro, Cinema, História. São Paulo: Alameda, 2013, pp. 29-82

Por, historiador Gabriel Medeiros Alves Pedrosa

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