A Normalização da Maldade

Tenho a impressão de que o brasileiro já cansou da pandemia do novo coronavírus. Nos assustamos por um momento, lamentamos a alta de mortes na Itália e na Espanha, mas agora já nos mostramos anestesiados. Claro, nem todos nós. Hoje é dia 12 de junho e já morreram mais de 40 mil pessoas. Como animais acostumados desde tempos primordiais a viver em pequenos grupos, temos muita dificuldade em comensurar algo tão grande assim. Como entender e sentir algo dessa dimensão? É grande demais pra um indivíduo. Este acaba sentindo e entendendo apenas quando vivencia, quando a estatística da vez é um conhecido, um amigo ou um parente. Assim fica mais fácil de significar a dor e o sofrimento.

(Wilton Junior/ Estadão Conteúdo)

Nessa quinta-feira (dia 11), houve uma manifestação pacífica na praia de Copacabana. A ideia era tanto de prestar homenagem à memória de que partiu quanto de lembrar a quem ficou a seriedade do que está acontecendo. Como eu disse, parece que estamos anestesiados. Cruzes foram colocadas na praia como representação do desastre. Alguns bolsonaristas – que já chegam agitados e quase espumando pela boca, é impressionante – acharam aquilo um absurdo. Um senhor, movido pelo que há de pior na humanidade, começou a derrubar as cruzes. Realmente, aquilo era um absurdo, mas não a representação e sim o que ela representa.

O taxista Márcio Antônio do Nascimento, ao passar pelo local e ver aquela cena dantesca de desrespeito a manifestação, a memória dos mortos e as famílias em luto, ficou tão consternado ao ponto de levantar todas as cruzes. Não foi ao local para brigar ou para bater em ninguém. Apenas demonstrou sua dor e sua indignação frente ao desrespeito daqueles cidadãos de bem. Márcio perdeu seu filho de 25 anos há dois meses para a covid-19, Hugo Dutra do Nascimento Silva.

Sei que temos lidado com absurdos todos os dias, mas não é possível ver uma cena dessas e não sentir nada. Não é possível ver, na mesma semana, o presidente pedindo que seus seguidores entrem nos hospitais de campanha para filmar os leitos, e não sentir nada.

Perdoe-me o uso de expressão, mas estamos doentes enquanto sociedade. Eu nem precisaria dizer isso. Você já deve saber. Todos somos pacientes de risco diante desse governo desastroso e caótico. O bolsonarismo trouxe para a superfície e normalizou o absurdo. Esse fenômeno contaminou o debate público e as relações sociais. Estamos odiando demais. Todos nós. O ódio se prolifera fácil. Como diz o oficial fascista de Saló ou Os 120 Dias de Sodoma (1975), de Pier Pasolini: “não há nada mais contagioso que o mal”.

E assim vamos normalizando as coisas sem nem percebermos. “E daí?”. “Já ia morrer mesmo, era velho, tinha comorbidades”. Olha só. E aqui começamos a normalizar a eugenia e o genocídio dos grupos de risco. Você já se perguntou como os cidadãos alemães aceitaram o nazismo, algo tão terrível e abominável? Pois agora você pode ver diante dos seus olhos como essas coisas acontecem.

E cuidemos nós que nos opomos a esse projeto destrutivo. Estamos sendo deformados por todo esse ódio que nos circunda. Claro, nem todos nós. Mas, como diria Nietzsche, “aquele que luta com monstros deve cuidar para não torna-se um também. Quando se olha por muito tempo para um abismo, o abismo olha para você”.

Escrevo com tristeza essas palavras.

Por, historiador Gabriel Medeiros Alves Pedrosa

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