Brincando de escrever, lembranças da Sra. Lispector

Meninos Brincando – Obra de Candido Portinari – 1955 – Expressionismo

“…há algo no mundo que nos desperta para o escrever e escrevendo respondemos à questão sincera que recaía sobre nós quando ainda estávamos diante do branco do papel ou da tela”.

Todo aquele que já investiu seu tempo numa leitura, ou que passou da hora de dormir, ou que leu por insônia, que ficou triste após derramar seu café no livro, ahh… todo aquele que já enfrentou uma dura batalha contra o peso das pálpebras, todo ser que se disse estar envolvido numa espécie de magia, ainda que as letras já estivessem sucumbindo numa tremenda escuridão, a das pálpebras, já deve ter se perguntado: como é que se escreve?

Bem, algo não muito diverso disso pode afligir os seres que fitam uma coisa em branco, uma tela talvez, talvez até uma folha, sim, de papel. Certa estranheza, certo medo se passa ali… as letras não se encaixam de primeira, não como as peças de lego se encaixam justamente, precisamente, basta acertar o buraco. Certo assombro, traços de desespero, o tempo não ajuda. Será que o problema reside nas letras, essas coisas estranhas? Onde fica o buraco? Como é que… como é que se escreve?

A interrogação é absurdamente clara, de natural beira o jardim da divina infância e suas igualmente santas peças de lego. Não para por aí, senhores! É válida. Temos, então, que tanto os sedentos leitores como os seus consanguíneos irmãos escritores se deparam com uma questão simples e franca. Mas não nos desesperemos, talvez seja uma questão mesmo de achar onde fica o buraco, quem sabe? Ou isso seria diferente de responder que só se sabe como é que se escreve, escrevendo?

Jornal do Brasil, novembro de 1968, a Sra. Lispector escreve um texto curto e franco, mais uma de suas crônicas. O título ‘Como é que se escreve?’ escancara-nos uma preocupação, ela quer saber onde fica o buraco, o encaixe das peças de lego. “Quando não estou escrevendo, eu simplesmente não sei como se escreve. E se não soasse infantil e falsa a pergunta das mais sinceras, eu escolheria um amigo escritor e lhe perguntaria: como é que se escreve?” a beleza natural do título e que ora nos toma atenção, parece esconder um assombro ainda maior, com certo grau de exagero nosso, por trás dessa questão adulto/infantil, mas como isso é possível?! Como podemos traduzir sentimentos, ideias nessas coisas absurdas: letras, palavras?… como é que se escreve? “Sei que a resposta, por mais que intrigue, é a única: escrevendo.” E assim responde docemente à questão que é nossa e dela, simultaneamente, a Sra. Lispector.

A jornada das letras tem assombros, melodias, rimas, encantos. Às vezes, tem mais coisas do que podemos dizer, às vezes, tampouco conseguimos dizer alguma coisa. Mas efetivamente, seja vendo uma criança brincar com lego ou lendo crônicas de um jornal antigo, há algo no mundo que nos desperta para o escrever e escrevendo respondemos à questão sincera que recaía sobre nós quando ainda estávamos diante do branco do papel ou da tela.

Por Alécio Andrade

Referências:

Crônica de Clarice Lispector publicada no Jornal do Brasil. Disponível em: http://leoliteraturaescrita.blogspot.com/2014/09/4-cronicas-de-clarice-lispector.html. Acesso em: 02 de mai. de 2020.

Obra de Candido Portinari. Disponível em: https://www.wikiart.org/pt/candido-portinari/meninos-brincando-1955. Acesso em: 20 de jun. de 2020.

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