Literatura de Cordel: Uma possibilidade para o ensino de História.

por, Ana Cláudia Pontes de lima

Literatura de Cordel; Ensino de História; Cultura Popular

Proponho neste texto uma breve reflexão sobre o uso de um recurso pouco comum no ensino de História, a literatura de cordel, essa  prática cultural que representa a realidade  de maneira ímpar a partir do ponto de vista popular.

A literatura de cordel é uma arte de expressão popular, que se utiliza da escrita em rima e versos, para retratar uma realidade própria do lugar do artista e seu entorno mais próximo, as crenças, lendas populares, histórias, tradições. Produzidos em geral, por pessoas de pouca formação escolar e de muito talento para a escrita. Este material em geral é impresso em folhetos de poucas páginas, com material de baixa qualidade e são tradicionalmente encontrados expostos em feiras de rua pendurados em cordões. O estilo artístico não é genuinamente nordestino ou brasileiro. Esta prática, com características muito semelhantes , pode ser encontrada na Europa entre os século XV e  XVIII, principalmente França, Inglaterra, Espanha e Portugal. Evidente que cada lugar esse gênero teve suas peculiaridades de produção e de público e com denominações próprias também.

Por falar em cultura popular compartilho do pensamento de Ângela Grillo,2015, e Roger Chartier, 1995, quando concordam que não há como distinguir objetivamente a cultura popular da cultura erudita, visto que uma estar vulnerável a influência da outra. Usando as palavras de Grillo,“(…)pois se alimentam reciprocamente na “ circularidade” que existe entre ambas”(2015,p.24).

Utilizar uma demarcação definitiva entre o que é popular e o que é erudito é um equívoco, tendo em vista que essa distinção não é clara e não é instransponível, este também não é o  objetivo aqui, utilizo o conceito de cultura popular para a literatura de cordel porque entendo essa prática cultural como feita pelo e para o povo, mas chamo aqui a atenção para a importância de se pensar nestas definições como questionáveis.

Michel de Certeau (2018) na Invenção do Cotidiano: A arte de fazer, cita o termo de “ prática desviacionista”, como uma marca da produção popular, que ousa exercer a capacidade criativa em uma sociedade industrial onde padrões de consumo são impostos, rompendo uma lógica produtiva que reprime a prática desta criatividade.

É a Nova História Cultural que possibilita ao historiador a oportunidade de considerar tais fontes que até a década de 1970 eram rejeitadas pela academia. Pode-se agora conhecer uma história e cultura do povo analisando e criticando fontes produzidas pelo povo.

O cordel é uma peça do complexo repertório social e cultural que se apresenta como veículo do cotidiano transformando-se em fonte histórica. Portanto, entendemos que é necessário visualizar os versos do folhetos nordestinos como fragmentos de uma realidade de um cotidiano, que representam vidas, alegrias, sofrimentos, amor, ódio, riso, fé, cidadania, cultura, política e história. Fontes documentais que não atendem a certa tradição historiográfica, constituindo-se como fruto de um olhar diferente, de outra sensibilidade e perspectiva de se narrar a História (GRILLO  e LUCENA,2014,p.89).

Como representação da realidade ,na sala de aula, o cordel tanto pode ser utilizado como fonte para leitura, análise, debate, quanto como possibilidade de produção do estudante em variadas temáticas. Sugere também a oportunidade de trabalhar interdisciplinarmente com artes e língua portuguesa, por exemplo.

Apresentando-se como uma linguagem relevante ao processo de ensino e aprendizagem, o cordel proporciona a possibilidade de conduzir o educando a fazer relações com conteúdos escolares com uma produção literária que se diferencia dos modelos tradicionais de ensino. Diante desse cenário, a rima, o gracejo e a musicalidade dos versos são elementos atrativos que podem despertar no aluno/a o senso crítico, a capacidade de interpretação, a curiosidade e o senso artístico (GRILLO e  LUCENA, 2014,p.90).

Desse modo, frente aos diversos desafios que se apresentam a disciplina história na educação básica, como: reduzida carga horária, falta de recursos em escolas públicas, livros didáticos distantes do contexto dos estudantes, a literatura de cordel pode favorecer o ensino e a aprendizagem  com aulas e atividades que despertem o interesse dos estudantes e oportunizem o desenvolvimento de diversas habilidades .

por, Ana Claudia Pontes de Lima

 Endereço para acessar este CV: http://lattes.cnpq.br/7657975467260643

Referência bibliográfica

Certeau, Michel  de . Invenção do Cotidiano:1. Artes de fazer. 22 ed-Petropólis, RJ ; Vozes , 2014. Chartier,Roger.A História Cultural: Entre práticas e representações. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil,1990. Grillo, Maria Ângela de Faria. A Arte do Povo na Literatura de Cordel(1900-1940). Jundiaí, Paco Editorial:2015. Grillo, Maria Ângela de Faria e Lucena, Kalhil Gibran Melo de.O Cordel e o Ensino de História:Possibilidades de uso e conhecimento histórico a partir da literatura de cordel. IN:Silva, Gian Carlo de Melo (org), Memória, história e cordel em Alagoas: teorias, práticas e experiências. Maceió: EDUFAL,2014

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