MORREU DENI DE ZÉ MADURO*

por, JOSÉ ROBERTO DE MELO FERREIRA

Cemitério Luiz Gonzaga, município de Paranatama/PE.

Você deve estar se perguntando: quem é Deni? Era um rapaz, 40 e poucos anos e o sorriso mais tímido que já vi. Deni era banguelo, era alcoólatra, morreu de cirrose. Seu cabelo era loiro liso e ele era o filho caçula de Zé Maduro, era um cara extremamente respeitador, nunca faltou com respeito com ninguém e nunca mexeu no alheio. Dito isto, Deni agora vai morar no cemitério Luiz Gonzaga, município de Paranatama-PE.

Local que fiz pesquisa e vi várias covas esquecidas e sem nome, mortos que além de mortos eram esquecidos e abandonados. Por outro lado, vários túmulos grandes, oponentes e até assombrosos, com nome, sobrenomes e datas, muitas velas e flores, algumas recentes. Entre os mortos também existe desigualdade social? Por que uns são lembrados e outros são esquecidos e caem no anonimato? Deni não estudou, era analfabeto, contam que na época dele não tinha escola e a escola que tinha era na cidade, porém, o transporte era apenas para as filhas do vereador da região. Mesmo sendo um transporte pra “rico” passava dias sim e dias não, a Caravan com os pneus carecas, sem porta (só abria a porta do motorista) e o motorista sem braço. Era assim na década de 1980.

Fazendo pesquisa no município onde são narrados os fatos ouvi dos nativos a seguinte afirmação: “nos últimos 40 anos em (…. nome da cidade) ninguém foi nada”. Forte isso né?! O relato dos nativos sempre é questionável, no entanto, ouvi de um ex-prefeito do município pesquisado que nos anos 1980 e anterior a este período dava pra administrar o município com 25% de todo FPM, também ouvi de várias pessoas relatos de que um ex-prefeito rejeitou na década de 1970 uma proposta pra fazer um colégio, alegando que não tinha como manter os funcionários e o transporte. A narrativa diz que seria botar o povo em costume.

Os militares, durante a ditadura, investiam em média 1% do PIB em educação, que alternativa tem um indivíduo, num município onde toda vegetação foi devastada, na sua região a média dos terrenos medem menos de duas hectares, sendo que sua família nunca teve mais que meia. Qual alternativa de uma pessoa sem escola num mundo onde surge a tecnologia.

Deni era separado, dois filhos que o amavam e eram amados, mesmo sem muita euforia e se você procurar nas redes sociais também não vai encontrar página nem fotos porque ele não tinha Facebook, não sabia mexer no celular. Ele ficava nos bares esperando alguém pagar uma pinga, ele gostava de coca cola, mas como teve 6 anos de secas consecutivas, não tinha dinheiro pra comprar o refrigerante e sentir ele refrescar a garganta com mais frequência, bebia a pinga pura. Ele era um cara trabalhador, forte, gostava de trabalhar, porém, com a seca, com o fim do ciclo das lavouras passou a não mais trabalhar no alugado e se viciou na cachaça. Ele era querido? Talvez, porém, cairá na vala do esquecimento, algumas lágrimas e nenhuma lembrança oficial, não deixará nenhuma herança pra servir de briga. Deni não escreveu nenhum artigo científico, a única Escola que frequentou foi pra trabalhar de servente, sozinho dava conta de dois pedreiros, pra os filhos de uma certa classe média, aristocracia rural, frequentar e depois tentar ser funcionários públicos.

É fácil ver a exclusão social na África, ver a Cracolândia em SP, difícil é compreender o quanto nós perdemos com cada viciado, cada pessoa que abre a boca e diz: eu não sou nada, eu não sou ninguém! É um processo lento, a pessoa começa se divertindo, vai ao campo de futebol aos domingos e depois quando se ver já está caindo bêbedo nas estradas. Inclusive já morreu algumas pessoas atropeladas bêbadas no mesmo sítio onde Deni morava. Qual o papel do Estado na vida das pessoas? Para que serve a educação? Zé Maduro pai de Deni uma vez me disse: estude pra ser gente, meus filhos queriam estudar, mas na época não podiam.

Sociedade que diz que vai ser gente, quem vai ser alguém, quem será lembrado e quem será esquecido, sociedade que faz os homens se apaixonar e morrer de cana, sociedade que faz os homens se desesperar e viver em vão? Deni não tinha o poder de decidir sobre a vida de ninguém! Não era médico, não era motorista, não foi Professor, não foi prefeito, deputado, nem vereador, ele decidiu sobre si e bebeu até morrer, não fará parte dos túmulos daqueles que são e detém o poder local, por Deni e por todos nós, até quando vamos ver pessoas serem esquecidas? Se desumanizar? #SomosTodosDeni?

Espero, que ao contrário do que julga e pensa vários cristãos, o descanso eterno lhe seja dado, porque aqui na terra está muito chato, até o acesso à Deus vedado, as vezes comprado e pra ter passaporte para o paraíso tem que ser de uma determinada religião, frequentar uma determinada Igreja, ter um certo comportamento e até nisso pobre do Deni deve está lascado! Ainda bem, que Deus não é como nós e não faz a minha vontade e nem a sua!

*Os fatos aqui narrados podem ser meramente fictícios, portanto, na condição de antropólogo estou trabalhando com tipos ideais, não me comprometo em provar os fatos narrados e nem tenho compromisso direto com a verdade dos fatos locais.

Autoria: JOSÉ ROBERTO DE MELO FERREIRA

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