Um preto, um negro, um eu.

Negros no Fundo do Porão é uma obra de 1835, do pintor alemão Johann Moritz Rugendas

Havia um eu, preto. Lábios grossos, orelha grossa, nariz largo com as narinas abertas, como alguém que puxa muito ar, respira, não tosse… Que sempre corre, ri, sorri com dentes brancos em contraste com a pele escura. Alguém que sonha, que imagina, que cria, que trabalha, que vive.

Sabias tu que eu era Rei, príncipe, princesa, que eu tinha vizinhos, que eu plantava, trabalhava e colhia, sabias tu que muitos de mim eram presos em sua própria terra, mas nada disso era ruim, não comparado ao que viria. Então todos eu fomos ao litoral, de lá se via uma enorme construção de madeira que navegava em grande velocidade, sentia-se medo… Tristeza… Receio… O que era aquilo?! Cada um de mim se perguntava. Então se via alguns seres naquele que todos chamavam de Navio, todos os temiam, pois sabiam que coisa boa não viria! Outros de mim conversavam com eles, negociavam… Então eles vieram em direção de todos nós, nos prenderam, nos adentraram, nos retiraram a identidade, a nossa terra, a nossa família, a nossa liberdade.

Meses se passavam, por todos os lados se via sangue, vomito, doença, medo. Eu que estava lá, eu que vomitei, que morri de sede, que morri de fome, que fui atacado por chicotes, eu que sangrei! Perdidos todos os eus ficamos, sentindo sofrimento, depressão, desrespeito. Imaginem, imaginem seis meses acorrentados em plena carne viva, imaginem os gritos que dor, imaginem a dor da sede, tentem cuspir quando já não se produz mais saliva!

O sofrimento aos poucos ia se adaptando, ninguém esquecia a família, mas todo o eu se conformava com o retorno que não viria. O negro lembra-se de todos os tubarões que acompanhavam o navio que ia em direção ao novo mundo, quando faltava comida, os negros se lembram dos tubarões que eram capturados… Imagine a fome, a fome de quem mal comia. Agora imagine o medo, o medo de abrir os tubarões e encontrar pedaços de eus esquartejados pelos animais, depois de dezenas de corpos serem jogados ao mar! Quem queria abrir um animal e encontrar sua cabeça, seu braço, sua pele.

Muitos mortos, alguns enfermos, alguns sequelados e outros inteiros, assim eu negro cheguei ao Brasil. Aqui o resto de dignidade foi retirado, a nossa liberdade sumiu, fomos vendidos como se vende um objeto. Encarados como seres sem alma, pecadores, pagãos. Fomos proibidos de ter fé, seja lá em no que se acreditava, preto não é gente, preto não é humano, preto é escravo. Muitos morreram por maus tratos, muitos morreram de exaustão, alguns foram alforriados, alguns até bem tratados, mas fazendo uma balança geral, para o que fomos libertados?

A escravidão então perdurou, massacrou. Fui abusado sexualmente, como servo também fui abusado, fiz os gostos do patrão para não ir para o tronco. Apanhei apenas por ser quem sou, ganhei míseros trocados, fui excluído e abandonado, perdi-me de quem sou, ainda bem que tudo mudou não é?

Tanto sofrimento e o negro mostra ser gente, mostra ser forte, dá um ultimo grito! – Ah! O preto agora foge, toma uns porres, volta, foge de novo, o negro ama, o negro namora, o negro se esconde, o negro é caçado e anunciado como se fosse um objeto roubado ou um cavalo fugido, tição é enganado, ao macaco não é oferecido nem uma banana, o carvão senta, queima, chora, grita, pede socorro, o negrinho põe a mão na cabeça, arranca os cabelos, cabelos esses duros, cacheados, crespos, cabelo de lixa, tição agora é assassinado, negrinho se enforca, se entoca, sufoca, o preto que era Rei, agora não possui nem cova.

Aquele escurinho, pretinho, sobrevive, se mistura, se torna um só. Você pode não ter cor escura, ou até ter pele morena e se orgulhar de dizer: “sou moreno, não preto”. Mas o preto está no teu sangue, na tua cultura, no teu molejo, na tua palavra no diminutivo, o negro está na tua genética, habita no teu nariz, nos teus olhos, no teu cabelo, na tua pele. O tição sou eu, mas o preto é você, você e você!

Orgulhe-se! Você vem do berço da humanidade, você é filho de reis e rainhas, nobres da pele escura, não sois apenas fruto dos criminosos que se sustentaram através da desumanidade. Então eu cresci, expandi, ocupei cada pedacinho de terra desse recente país. Ocupei uma massa gigantesca de quilombos, resisti, não me conformei, quis ser livre! Eu preta mulher disse não ao homem, disse sim a vida, as escolhas, as atitudes.

Mesmo assim fui expulso, excluído, marginalizado, subi nos morros, habitei nas periferias, desci para o submundo, para a injustiça. Depois de tudo que me ocorreu o negro caiu no inferno, o negro rouba, mata, o preto tem ódio no coração, o tição foge agora por ter feito o que fizeram com ele um dia! Pergunto-me se algo mudou então, onde está a liberdade? Onde está minha comida? Minha água? Paro para pensar então… daqueles seis meses no navio, quantos deles já se passaram?

Por Historiador Bruno Adriano Barros Alves, 20/11/2015.

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